Uma Jornada e tanto 💚
Dez anos do meu primeiro lançamento e um pensamento ou outro sobre as histórias que contamos
Olá, povo bonito!
Hoje vi três coisas se entrelaçarem diante de mim e queria compartilhar um pensamento com vocês. Foram coisas distintas, cada uma puxando a outra, mas que resultaram neste texto.
A primeira delas foi receber a versão corrigida do meu primeiro livro, A Jornada das Bruxas. Eu tinha retirado a antiga da Amazon e enviado para a minha revisora, que me devolveu hoje cedo. Então, enquanto ainda acertava o arquivo, recebi uma newsletter da K.W.Weiland sobre histórias serem nossa cosmologia — o que acabou me levando até a terceira coisa: os conceitos de um psicólogo chamado Dan McAdams.
Prometo que tudo vai se conectar no final, fiquem comigo :)
Quando comecei a escrever, por volta de 2012, nunca imaginei como seria a minha jornada futura. Eu tinha vontade de colocar um livro no mundo, então arrumei um tempinho, sentei e comecei a escrevê-lo. Mas era só isso: sem planos de fazer disso uma carreira, sem datas, sem muito conhecimento. Essa história contava sobre uma adolescente chamada Nina, convocada a passar o verão na Romênia enquanto aprendia a se tornar uma bruxa.
Passei muitos anos desenvolvendo essa história. Nesse meio tempo, tive minha filha (que chamei de Nina), nos mudamos de país, depois nos mudamos novamente. Mas sempre que podia, acrescentava um capítulo, polia as palavras, ajustava uma coisinha aqui e ali. Finalmente, lancei o livro em 2016, primeiro no Wattpad e depois na Amazon, e ele foi recebido com muito carinho. Hoje, dez anos depois, com ele pronto para voltar à plataforma, percebo que há muito de mim naquela garota que se recusa a ser quem é, mas se envereda por esse caminho mesmo assim.
Isso me leva à newsletter que recebi no meio da tarde.
Nela, a K.Weiland fala sobre como narrativas não são apenas formas organizadas de acontecimentos, mas “padrões fundamentais pelos quais estruturamos significado e propósito no mundo.” Ou seja: não apenas lemos e escrevemos histórias, mas vivemos dentro delas, porque sem elas não temos borda nem formas de entender o mundo.
O que isso afirma, em parte, é que as histórias que criamos, consumimos e contamos para nós mesmos vêm de um impulso humano universal de tirar sentido das experiências. Isso significa que a própria forma como elas se desenrolam — seus ciclos de crise, o momento da escolha, a hora do sacrifício, a transformação do final — é um espelho do que vivemos (e acabam retornando ao papel depois de ressignificadas). Em outras palavras, e aqui já estou desviando do texto da autora, é que não há separação entre nós e elas. Elas são a gente. Somos nossas histórias.
E isso me levou a Dan McAdams e sua teoria sobre Identidade Narrativa.
Um dos motivos pelos quais demorei tanto para lançar minhas bruxinhas (quatro anos desde que abri o computador até o dia em que elas chegaram ao mundo) foi porque estava terminando o mestrado e escrevendo minha tese, cujo tema era: histórias que contamos em diferentes momentos da vida. Na época, McAdams lecionava psicologia na Northwestern, perto de onde eu morava. Meu orientador e ele eram amigos e foi assim que cheguei ao livro The stories we live by. Após alguns e-mails trocados com o autor, senti que tinha finalmente o fio condutor do meu trabalho final.
A ideia da teoria da identidade narrativa (ou narrative identity, em inglês) é simples e poderosa:
Nós construímos quem somos contando histórias sobre nossas próprias vidas.
Segundo McAdams, essas histórias são responsáveis por formar nossa personalidade em um processo de retroalimentação. Ou seja, nossos traços mais profundos (introversão, extroversão, abertura ou não para experiências, etc.) moldam as histórias que contamos sobre nós mesmos (“ah, eu sempre choro muito em filmes” ou “eu não gosto muito de contato físico” ou ainda: “sou baladeira, adoro uma festa animada”) — e que, por sua vez, moldam como vivemos e interpretamos novas experiências (“melhor não fazer x, y, z porque não sou boa nisso” ou “vou arriscar fazer x, y, z porque sou resiliente e capaz de lidar com as consequências”).
Nesse sentido, quem somos influencia na história que criamos, mas depois, a história que criamos passa a nos influenciar. E aí, tudo que vem depois — o que percebemos, lembramos, esperamos do futuro, as decisões que tomamos, se vamos ou não aos lugares, se gostamos de certas pessoas, etc. — é filtrado por essas narrativas.
Legal, né?
Mas por que estou dando essa volta toda para falar sobre o meu primeiro livro?
Acontece que aquela bruxinha que recebeu um chamado do Mundo abriu uma trilha em mim. Uma em meio a uma mata cerrada e escura, que pensei que nunca atravessaria. Hoje, entendo que aquela primeira história não foi só um exercício de imaginação ou o desejo de publicar um livro: foi a forma que encontrei de organizar um novo caminho — um em que eu fazia meu maior sonho acontecer.
A jornada de Nina, cheia de resistência, recusas e confrontos, também é uma jornada de aceitação e aprendizado. Ela traz consequências, irrita, exige responsabilidades, mas também revela um mundo novo. Olhando agora pelo espelho retrovisor, vejo o quanto aquela caminhada também foi minha. Em como me ajudou a pegar essa nova direção, a me preparar para o que me esperava adiante, e quem eu queria me tornar no futuro.
Mas o mais interessante: a caminhada, uma vez começada, tornou-se o próprio combustível para prosseguir.
Quando A Jornada das Bruxas nasceu, nasceu junto a Karina escritora.
Hoje, entendo melhor o que a teoria de McAdams afirma: histórias não apenas contam quem somos: elas organizam quem nos tornamos no futuro. Aquela jornada da transformação, com suas crises, escolhas e atravessamentos, proporcionou o mundo em que vivo agora.
O livro tem seus defeitos, eu sei. É amador em muitos pontos e eu queria poder mudá-lo, mas não vou. Ele é profundamente verdadeiro, corajoso em sua tentativa inicial e um marco importante na minha história.
Obrigada por fazerem parte de tudo que veio depois. E que a arte, em todas as suas formas, continue nos conectando e trazendo sentido às nossas vidas.
Mil beijos,
Karina



Eu adoro tanto A jornada das bruxas. Ainda tenho várias cenas vivas na minha memória. Acho que histórias que nunca apagam, que retornam as imagem que fantasiamos enquanto lemos são incríveis.
Aliás todo esse texto é incrível. Eu ando pensando muito sobre as minhas novas personagens pós maternidade, quão diferentes, maduras e profundas são. Diferentes dos dilemas das personagens anteriores. Obrigada por esse texto!